Vou contar um pouquinho e bem resumido do que passei de três anos pra cá.
Tinha uma vida bem agitada: esposa, mãe,trabalhava, estudava, era atuante na comunidade, voluntária em vários lugares, etc...
De repente senti umas coisas estranhas, foi descoberto um problema de coluna e que precisava fazer uma cirurgia urgente. Lá fui eu... Cirurgia feita e sucesso. Saí andando muito bem, alegre da vida. Passei alguns dias em casa e comecei a sentir dores, voltei ao hospital e por lá mesmo fiquei.
Sepse, esse foi o diagnostico. Nem tinha idéia do que era isso. Fiquei no hospital alguns meses e depois muitas idas e vindas. Precisei fazer uma segunda cirurgia na coluna, mas desta vez era para limpeza, para assim conseguir baixar minha sepse. Aí danou-se, nessa cirurgia teve lesões na medula, pois precisou fazer um processo de raspagem , por isso digo que o que tenho são seqüelas da infecção.
Foi muito dolorido todo o tratamento e ainda é. Sinto dores que muitas vezes não consigo nem explicar. Saí do hospital muito fragilizada, achando que era passageiro, que com o tempo ia melhorar, ia voltar a minha vida normal, a minha rotina. Isso não aconteceu...
O tempo ia passando e percebia que minhas pernas não me obedeciam mais. Fui perdendo a força progressivamente. Passei de andante para mancante, de mancante pra bengalense, de bengalense para muletante e muletante para quase cadeirante. Sempre falo quase cadeirante, pois não a utilizo sempre, e sim quando tenho que sair, sendo que me mudei para um apartamento e tenho tudo organizado de uma forma para facilitar minha vida.
Me lembro como sofri ao ser apresentada a bengala. Foi como se me tornasse incapaz. Não demorou muito comecei usar muleta canadense. Fiquei triste de imediato, mas assim que dei os primeiros passos, a felicidade foi tanta que parecia que tinha descoberto a roda, rsrsrs. Percebi que com elas não precisa mais de tanta ajuda e ganhei mais postura.
As primeiras vezes que andei na cadeira me senti humilhada, não queria que nenhum amigo me encontrasse e foi exatamente o contrário que aconteceu. Sempre encontrava alguém conhecido. Ainda não tive coragem de ir a igreja de cadeira, lá tem muita gente que não entende direito o que me aconteceu e é tão difícil e dolorido explicar tudo...
Hoje sou DEFICIENTE FISICA. Não foi fácil aceitar, nem foi por lastimar ou preconceito e sim por não entender o que estava acontecendo. Não tive nenhum profissional da saúde que me explicasse o que estava havendo comigo, coisa hoje que sei que seria obrigação do médico me orientar e encaminhar para uma melhor adaptação. Mas isso é outra história...
Agora estou vivendo mais um momento de adaptação. Intestino e bexiga não estão querendo me obedecer... Sabia que poderia acontecer, já tinha lido artigos que relatavam casos de pessoas que tinham lesões medular que acabavam tendo esse tipo de problemas , mas sou humana demais e sempre desejei que não acontecesse comigo. Hoje quando chego em algum lugar logo procuro saber onde está o banheiro.
Agora estou perdendo também a sensibilidade nas pernas. Pra falar a verdade essa falta de sensibilidade nem tinha percebido foi o meu médico que ao me examinar me deu a notícia, depois do diagnostico me dei conta que também estou arrastando muito o pé e sei que isso não é bom sinal. Se aparecer em minha frente um minúsculo degrau ele rapidamente se torna uma muralha fazendo com que tenha que me preparar física e psicologicamente para enfrentá-lo.
Hoje estou vivendo um momento de incerteza do futuro, estou esperando também outros resultados para definir tratamentos ou paliativos.
Lógico que tudo isso mexe com a vaidade de qualquer um, mas tenho que enfrentar da melhor maneira possível. Sempre digo que se eu que tenho que enfrentar então...
Mas de tudo tem um lado bom, descobri esta semana um lado maravilhoso. Fui fazer depilação e não senti dor nenhuma. Falando sério, sou grata por Deus ter colocado em minha vida pessoas maravilhosas que nunca me abandonaram. Digo isso por que percebemos que tem “amigos” que se afastam, talvez inconscientemente, tem outros que pelo contrário se aproximam e não deixam que nada nos abalem, e pegam para si as dificuldades do meu dia a dia.
A família então... todos ficam atentos às novidades do mercado para facilitar meu dia a dia, a lugares acessíveis e o mais legal de ver é que deixam de ir ,mesmo que não iriam comigo, a lugares que não tem acessibilidade. Costumo falar que não existe uma pessoa com necessidades especiais e sim uma família, eles vestem a camisa.
Tenho certeza que se Deus me deu esta cruz é por que suporto e com ela que tenho que construir minha historia.
É por isso que não desanimo, não me sinto fragilizada e tenho esperanças que dias melhores virão e afinal este é meu lema “um dia de cada vez e sempre”.
Beijo a todos.
Márcia Pitelli